domingo, 24 de junho de 2012

O encontro


- Oi, Vivi, bom dia!
- Bom dia, Francis.
- Já ouviu a última?
- Não. O quê é?
- Parece que o Renato, do Marketing, saiu de casa, se separou da mulher.
- Jura? Quer dizer, ah, que pena...
- Ah, sei, sei. A mulherada tá pirando, o cara é um gato!
- Mas é super sério também, não dá confiança.
- Não dava, né? Porque era casado, agora, não é mais.
- E você sabe o motivo da separação? A mulher não ia largar um gostosão desse à toa.
- Estão dizendo que ela gosta de “colar velcro”.
- “Colar velcro”? Como assim?
- Caramba, Vivi! Ela gosta de mulher!
- Nossa! Coitado, o Renato deve estar arrasado.
- Sim, e precisando de um ombro amigo, não?
- Francis, você está absolutamente certa! O problema é que a mulherada vai atacar geral.
- É verdade, Vivi. Vai ser uma disputa e tanto!

Depois da conversa com a amiga Francis, Vivi não conseguiu mais se concentrar no trabalho. Passou o dia distraída, a ter fantasias das mais diversas com o Renato, do Marketing. De casamento com filhos à pura luxúria, ela não parava de pensar nele um minuto sequer. E assim se repetiu por um longo tempo. Mas, à medida que os dias foram se passando, os pensamentos foram ficando menos intensos e Vivi foi deixando a história de lado, voltando a ser produtiva no trabalho. O problema é que havia atrasado demais suas tarefas, tinha muito serviço acumulado. Então, numa quinta-feira qualquer, decidiu que ficaria até mais tarde, para dar conta de tudo. Lá pelas 20h, resolveu ir à máquina de café. Precisava andar um pouco, esticar as pernas, alongar os tendões, estava exausta, mas ainda faltava uma tabela a preencher.

Vivi se dirigiu ao corredor onde ficava a máquina de café. A iluminação estava pela metade, as baias vazias pelo caminho, silêncio absoluto. – Que tranquilidade! – disse a si mesma. – Poderia ser assim todos os dias!

Aproximou-se da máquina, escolheu um café com leite sem açúcar e, enquanto aguardava a bebida ficar pronta, ouviu uma voz grave atrás de si.

- Boa noite, Vivi!

Imediatamente sentiu o sangue a subir-lhe às faces, queimando-as como ferro em brasa. Virou-se lentamente.

- Boa noite, Renato! O que faz aqui a esta hora?
- Bem, eu ia lhe perguntar o mesmo, mas já que você perguntou primeiro... é justo que eu responda. Amanhã, farei a apresentação de uma nova campanha, para um novo cliente, então, preciso ter certeza que tudo correrá bem, por isso, resolvi revisar todo o material antes de ir embora. Acho que daqui a uns trinta minutos eu termino.
- Ah, ok, isso é muito importante!
- Sim. Mas, e você? O que te levou à hora extra?
- Muitas e muitas planilhas com dados desatualizados. Andei meio “ausente” ultimamente e deixei acumular o serviço. Mas, agora, está tudo sob controle novamente. Quer dizer, estava, até você aparecer. – esta última frase Vivi disse entre dentes, quando se virou de costas para Renato para retirar seu café com leite da máquina.
- Perdão?
- Não foi nada. Quis dizer, que bebida vai querer?
- Ah, pode ser um café puro, com muito açúcar. Obrigado.

“Tão másculo”, ela pensou enquanto olhava estática para os botões da máquina, sem saber o que deveria fazer.

- Está tudo bem, Vivi?
- Hã? Sim, sim, está, claro. É que sempre tiro o açúcar das minhas bebidas e... enfim, deixa pra lá. – ela apertou o botão.
- Espero que não seja nada de mais.
- O quê?
- O motivo da sua “ausência”.
- Ah, isso? – e agora? dizer o quê? pensa rápido, pensa, pensa, pensa! – Na verdade, eu andei ajudando minha irmã com a filha. Minha sobrinha tem seis anos e andou meio doentinha e eu estava dando uma força a ela. – Meu Deus! Que história ridícula foi essa que você inventou? Por que o fim do mundo não começa agora? Primeiro eu, primeiro eu!
- Puxa, que legal da sua parte! Muito mesmo! Mas está tudo bem com ela agora?

Vivi se virou para retirar o café da máquina. “Você é ótima! Que ideia genial! Orgulho de você, garota!”, pensou com um enorme sorriso na alma.

- Sim, está tudo bem, sabe como é, criança se recupera super rápido. Ela ficou uns dias comigo e nos divertimos muito.
- Que máximo! Sabe, desde que me separei, meus filhos estão morando comigo, e eles são fabulosos, mas sinto falta de algumas coisas.
- Ah, você se separou? Eu não sabia, sinto muito, muito mesmo.
- Não? Pensei que todo mundo já soubesse. Acho que foi notícia por semanas.
- É mesmo? Bem, não costumo ouvir conversas de corredor sobre a vida dos outros, acho isso muito desconfortável.
- Sabe, Vivi? Estou surpreso. Trabalhamos juntos há tanto tempo e eu não sabia que você era uma pessoa tão especial. Ajudando a cuidar da sua sobrinha doente, se mantendo longe das fofocas. Você é muito íntegra!

“Certo, tá batendo uma pontinha de remorso, mas, são coisas que eu poderia fazer, então, eu poderia ser íntegra dessa forma. Foco, foco, foco, você quer sair com ele ou não quer?”

- Que é isso, Renato, assim você me deixa encabulada. Mas, me diga, de que coisas você sente falta?
- Ah, sinto falta de sair com alguém, mas é tão difícil, sozinho com duas crianças pequenas. A mãe aceitou um emprego em outro país e ficará fora por, pelo menos, dois anos. E eu não confio em ninguém...
- Entendo. Deve ser difícil mesmo.
- Se é! Veja, eu gostaria de jantar com alguém diferente no Sábado, mas não tenho companhia...
- Eu posso ser sua companhia! – Deus! Como você se oferece assim? Cadê a integridade?
- Jura? Você está falando sério? Não posso aceitar. É como se estivesse fazendo isso por caridade.
- Caridade? Não! Farei isso porque gosto de você, porque nos conhecemos há muito tempo e ficarei feliz com isso.
- Mas tenho duas crianças.
- Amo crianças! Lembra? Minha sobrinha?
- Então, é sério? Posso marcar um jantar para o Sábado?
- Seríssimo! Pode marcar, estarei lá!
- Nossa, uau! Hum, você pode chegar por volta das 20h?
- Claro!
- Ok, ok, amanhã eu te dou o endereço.

Renato abraçou Vivi feliz da vida. Vivi se deliciou com o cheiro do perfume que exalava da nuca dele. Ambos felizes, voltaram às suas baias para concluir o que ainda estava pendente. Desnecessário dizer que Vivi não conseguiu concluir a planilha, nem se concentrar durante todo o correr do dia seguinte. A sexta-feira passou lenta, Renato enviou-lhe o endereço e celular por e-mail, exaltando-a e agradecendo-a por se revelar tão boa amiga. Devido à apresentação ao novo cliente, ele não apareceu na empresa naquele dia. Ela estava tão excitada e deu graças a Deus quando Francis ligou dizendo estar muito gripada e com febre e que, por isso, não iria trabalhar. A amiga, com certeza, perceberia sua agitação e ela não queria contar a ninguém sobre esse encontro, pelo menos, por enquanto.

No Sábado, Vivi acordou cedo. Tinha uma agenda cheia até às 20h. Depilação, corte, pintura, escova, podólogo, pedicure, manicure, banho de lua, vestido novo, sapato novo, roupa íntima nova. O plano era ir bonita, mas sem exagero, afinal, iria jantar com Renato e as crianças, tinha que estar simples. Também comprou uns brinquedos para surpreender os fedelhos. Se tivesse sorte, eles cairiam no sono cedo e poderia rolar um clima entre ela e Renato.

“Sim! Nada estragaria aquela noite tão especial. Estava entrando na vida íntima do homem mais desejado da empresa. Ela, sem dar em cima dele, foi convidada pelo próprio para jantar em sua casa!”

Às 20h05 ela chegou ao apartamento de Renato.

- Oi! Você chegou! Entre!

Renato deu-lhe dois beijinhos nas bochechas e conduziu-a para dentro.

- Crianças venham aqui! Esta é a moça bonita de quem falei para vocês, a Vivi.
- Vivi, este é o Dudu, ele tem seis anos. E esta é a Nanda, ela tem quatro anos.
- Ah, que amores eles são.
- Olha, não tenho como te agradecer por isso, vou ficar te devendo essa!
- Devendo?
- Sim, eu não confiava em ninguém para tomar conta das crianças, então, eu nunca saía. Hoje, finalmente, terei meu primeiro encontro! Graças a você! Olha, fique à vontade, a cozinha é ali, sirva-se do que quiser. O quarto das crianças é naquela porta e você já tem meu celular. Ligue-me se precisar de qualquer coisa.

Renato se virou para trás e chamou.

- Francis, anda, a Vivi chegou, vamos perder a reserva no restaurante!

sábado, 2 de junho de 2012

O ladrão de tortas

Carlos chegou em casa batendo a porta. A mulher, que estava sentada no sofá assistindo a novela, assustou-se com o barulho, jogando para o alto a revista que tinha mãos.

- Que é isso homem? O que aconteceu? – esbravejou ela.

Ele olhou-a com os olhos vermelhos banhados pelo sangue da ira e resumiu:

- Tô puto!

A esposa, sem saber ainda o motivo da raiva, tratou logo de imaginar se seria ela a causa daquele rompante e com voz mansa perguntou cautelosamente.

- Mas, o que aconteceu para você estar assim?
- Há semanas alguém vem roubando minha sobremesa. Todo dia eu compro uma torta pela manhã e coloco na geladeira do trabalho. Acontece, que eu não consegui comer uma sequer, porque o larápio chega sorrateiramente e ataca sem ser visto ou deixar rastro.
- Ah, é isso? – a mulher comentou sem dar importância.

Carlos explodiu.

- E você acha que não é nada demais? O que dá o direito desse gatuno comer o que não é dele? Eu volto do almoço salivando pela torta e ela nunca está lá! Nunca! Entendeu? E se eu começasse a usar seus cremes de um milhão de dólares ou tomar suas pílulas de dieta? Como você se sentiria?
- Eu ia ficar puta da vida com você. – ela reconheceu.
- Pois, então, não sei mais o que fazer para pegar o safado!
- Bem, não adianta você ficar assim. Por que não deixa para comprar a torta depois do almoço?

Carlos fuzilou-a com o olhar.

- Por um acaso você se casou com um imbecil? Não acha que eu já não pensei nisso? Acontece que a loja das tortas é aqui perto de casa, ou seja, eu compro antes de ir para o trabalho.
- Ah... – ela preferiu não fazer mais nenhum comentário.
- Não acho justo eu deixar de comprar minha sobremesa porque um ladrãozinho de tortas, sem-vergonha, se apropria do que é dos outros na maior cara de pau!
- Você não tem ideia de quem possa ser?
- Não. Eu já pensei, pensei e nada. Somos doze ao todo no setor, incluindo o vice-presidente, o diretor financeiro e a assessora do presidente.
- Você acha que essas pessoas estão acima de qualquer suspeita?
- Na verdade, acho que nenhum dos doze têm o perfil de quem rouba torta alheia. Ao mesmo tempo, acho que pode ser qualquer um. – ele desabafou com um suspiro.

O resto da noite seguiu e o mau humor de Carlos não diminuiu. Jantaram em silêncio. Assistiram TV em silêncio. Foram para cama em silêncio. Por volta de uma hora da manhã, a esposa acordou repentinamente com uma ideia na cabeça. Virou-se para o lado e sacudiu Carlos.

- Amor, amor, acorda. Pensei em algo que pode ajudar.

O homem, ainda adormecido, tentou abrir os olhos em vão. A mulher, então, acendeu a luz do abajur e sacudiu-o mais uma vez.

- Acorda Carlos, eu tive uma ideia para você pegar o ladrão de tortas.

Apertando os olhos devido à claridade, Carlos esforçou-se por mais alguns segundos, até que, finalmente, conseguiu encarar a esposa.

- O quê? O que foi?
- Estive pensando num jeito de você ferrar com esse gatuno.
- De que forma? – ele perguntou ainda sonolento.
- Injete um laxante na torta. Se o safado começar a ter diarreia toda vez que comer sua sobremesa, ele vai acabar desistindo.

Carlos refletiu sobre a sugestão e com um sorriso amassado beijou a mulher na testa.

- Você é ótima! Excelente ideia!

Ambos voltaram a dormir, mas, antes de se entregar aos braços de Morfeu novamente, Carlos se deliciou com a dor de barriga que iria causar no salafrário. Algumas horas depois, o despertador tocou e Carlos se levantou. Dessa vez, foi ele quem sacudiu a esposa para acordá-la. Com alguns resmungos, ela o olhou como se apenas seu corpo estivesse ali, sem que a alma tivesse tido tempo de retornar do mundo astral.

- Hã?
- Onde está o laxante?
- Quê? – ela balbuciou de olhos fechados novamente.
- O laxante, querida, onde está?
- Ah, tá no armário do banheiro, é um vridrinho branco, procura lá.

Carlos foi ao banheiro e abriu a porta do armário sob a pia. Estava tão excitado com o plano, que mal podia esperar. Viu de cara uma seringa, e achou que seria muito útil na execução do plano, colocou-a no bolso da calça. Em seguida, pegou um vidrinho e colocou-o no outro bolso.

Uma hora depois, Carlos chegava ao trabalho feliz da vida. No carro, havia injetado o líquido na torta e, agora, caminhava-se para a copa do escritório, onde guardaria sua torta na geladeira.

Como de costume, ao retornar do almoço, o ladrão já havia atacado e sua torta já não estava mais lá, mas ele não se importou, apenas sorriu para si mesmo e pensou “É hoje que esse biltre se ferra!”

Chegou em casa feliz. A esposa assistia à novela. Ele jogou-se ao lado dela no sofá e relaxou.

- Você desistiu de executar o plano? – ela perguntou curiosa.
- Claro que não! A essa hora o maganão já deve estar sendo coroado em seu trono!
- Ué, como assim? Eu vi que o laxante ainda está lá no banheiro. – ela estranhou.
- Não, não está, eu levei o vidrinho comigo. – ele respondeu surpreso.

A mulher se levantou e saiu da sala. Menos de um minuto depois, retornou com um vidrinho branco nas mãos.

- Olhe, o laxante está aqui.

O homem olhou curioso.

- Mas, mas... eu peguei um vidrinho... ele era... ele era... transparente...
- Você pegou o vidrinho transparente? – ela deu um grito de horror.
- Sim, sim, acho que sim. Eu estava com sono ainda e empolgado com o plano. Confundi branco com transparente. O que tinha naquele vidrinho?

A esposa começou a chorar. Sentou-se ao lado do marido, segurou-lhe a mão e disse com sofrimento e desespero:

- Veneno!

A mulher explicou que havia comprado o veneno para um rato que há dias rondava pela casa, mas, como não tinham crianças, não se preocupou em escondê-lo. Ambos se abraçaram e passaram a noite em claro, chorando. A mulher sentia-se responsável. Ele, um imbecil que confunde branco com transparente.

Pela manhã, ele pensou em ligar para o trabalho e dizer que estava doente, mas desistiu. Mais cedo ou mais tarde teria que encarar o que fizera. Tudo por causa de uma torta! – Mas por que esse infeliz tinha que comer o que não era dele? – Não, não havia desculpa para o que fizera. Não se mata uma pessoa por causa de algumas fatias de torta. Carlos vestiu-se de qualquer jeito, despediu-se da mulher com um longo abraço e saiu para o trabalho. Naquela manhã, ele não passou na loja das tortas.

Mal havia colocado os pés no escritório, um colega veio correndo ao seu encontro.

- Já soube da última?
- Quem morreu? – Carlos perguntou sem pensar.
- Então, você já sabe? – o colega retrucou.
- S-s-sei o-o quê? – Carlos gaguejou.
- Que o vice-presidente morreu!

§§§

Carlos tentou abrir os olhos mas a luz ofuscou-lhe a visão. Escutou vozes que pareciam vir de longe, mas não foi capaz de compreendê-las.

- Vejam! Ele está acordando! Afastem-se, afastem-se! Ele precisa respirar.

Carlos sentiu um pano úmido sendo passado em sua testa e peito. Tentou, mais uma vez, abrir os olhos. Aos poucos, foi tomando consciência e percebeu que estava deitado no chão do escritório. Os colegas todos o olhavam com surpresa.

- O que aconteceu? – Carlos perguntou confuso.
- Você desmaiou de repente. – explicou uma colega.

Foi, então, que ele se lembrou do motivo. Seu peito apertou e uma angústia profunda invadiu-lhe a alma.

- O vice-presidente morreu? O “nosso” vice-presidente? – ele checou, afinal, quem sabe não teria entendido errado?
- Sim, o helicóptero no qual estava caiu hoje às seis da manhã, uma tragédia. Morreram as três pessoas a bordo: ele, o piloto e um jornalista. Mas não pense nisso agora, temos que saber o que você teve.

Subitamente, Carlos sentiu-se melhor. Então, não fora ele que matara o vice-presidente? Que alívio! Mas, logo em seguida, pensou que ainda tinha um problema. Alguém comera sua torta envenenada. Com ajuda dos colegas, ele se levantou e foi para sua sala. Não aceitou nenhum conselho para ir ao serviço médico e passou o resto do dia trancado no escritório.

O dia de trabalho chegou ao fim e ninguém mais havia passado mal. No dia seguinte, sexta-feira, não haveria expediente, pois seria o enterro dos restos mortais das vítimas do acidente. Por sugestão da mulher, Carlos continuou levanto a fatia de torta, para que ninguém desconfiasse de nada.

Mas isso foi há seis meses atrás e as tortas de Carlos nunca mais desapareceram...

domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma semente foi plantada

O céu amanheceu de uma cor qualquer. Ela não se deu ao trabalho de olhá-lo. Com certeza seria um dia diferente. Olhou o relógio desnecessariamente, pois sabia que era a hora de todos os dias.

Estava ansiosa, muito ansiosa. O dia iria demorar a passar. Estaria fazendo a coisa certa? Buscou uma frase, uma palavra, um sinal... qualquer coisa que a fizesse desistir, mas tudo aconteceu de forma inversa.

Então, ela foi. E encontrou o perfume envolvente, a palavra gentil, o gesto carinhoso, o olhar de desejo, o beijo apaixonado. Quatro horas pareceram quatro minutos. O sono foi pouco para tantos sonhos. O bom dia chegou e ela reparou que o céu estava lindamente azul. Sorriu e esperou.

Estava ansiosa, muito ansiosa. O dia iria demorar a passar. Então, de novo veio o beijo, o abraço, o cheiro, o riso. O passeio de mãos dadas, a conversa animada. O que fizeram com as horas? Elas não duram mais sessenta minutos?

Você disse “o primeiro dia do resto de nossas vidas”
Eu disse “o segundo dia do resto de nossas vidas”

Seu bom dia já chegou. E me pareceu ouvir aquele sussurro no ouvido que arrepia e dá prazer.

Eu estava perdida e você me encontrou.
Eu estava triste e você me alegrou.
Queria te chamar de amigo,
Mas acho que te chamarei de amor!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O caso da pulseira roubada – Parte 2

Depois de interrogar os quatro empregados de confiança da senhora Lamarck, o detetive Gonçalo deixou a biblioteca acompanhado pelo policial Motta e dirigiu-se à sala de estar, onde era aguardado ansiosamente pela dona da casa.

A senhora Lamarck andava de um lado para o outro, certamente, não acreditando que fosse possível prender o gatuno que furtara sua preciosa pulseira de rubis. Ao perceber a aproximação dos representantes da lei, ela correu em direção a eles.

- E então detetive? Descobriu quem roubou minha pulseira? Não posso crer que um de meus empregados fez disso!
- Mas creia senhora Lamarck, creia! – o detetive disse enfático. – Peço que os reúna aqui imediatamente!

Atendendo ao pedido do detetive Gonçalo, a senhora Lamarck foi com o policial Motta convocar os quatro empregados de confiança da casa.

Em poucos minutos, todos estavam reunidos no ambiente, acomodados no luxuoso sofá e nas aconchegantes poltronas e cadeiras que compunham a decoração da sala.

O detetive permanecia em pé. Olhou um a um dos presentes, abaixou a cabeça, coçou o queixo e, de repente, apontou para o mordomo.

- Senhor Thompson, por que roubou a pulseira?

Todos se entreolharam chocados e aliviados de terem sido inocentados com aquela acusação. O mordomo, no entanto, reagiu com aspereza.

- Detetive! Como pode me acusar assim? Isto é uma calúnia! Baseado em quê, o senhor me acusa?

Mas antes que o detetive Gonçalo pudesse responder, houve um rompante de vozes.

- Eu sabia! Sempre é o mordomo!
- Prende ele, prende!
- Ladrão!
- Falso!
- Vai ver foi ele quem roubou minha caneta do Mickey!
- A caneta do Mickey era sua?
- Era, por quê?
- Ih, fui eu que deixei cair no chão e o cachorro estraçalhou ela todinha.
- Oh! Mas o sanduíche de presunto que eu coloquei em cima da mesa, com certeza, foi ele quem comeu!
- Foi não, foi o cachorro também...
- E o chocolate que...?
- Cachorro...

Por alguns minutos o detetive não interferiu, preferindo observar o quão volúvel é a natureza humana. Bastou apenas uma acusação, sem provas, e todos se voltaram contra o colega. De repente, o mordomo se tornou o culpado de todos os pequenos desaparecimentos inexplicáveis. E todos estavam convictos de que ele era o criminoso.

- Calem-se! Já chega! – bradou o detetive. – O mordomo não é o culpado!

Ao ouvirem a declaração do detetive, todos silenciaram. A senhora Lamarck olhou atônita, sem entender.

- Mas, então, detetive, se não foi ele, quem foi?
- Senhora Lamarck, todos os seus empregados mentiram no depoimento.
- Oh... – foi a resposta geral, inclusive do policial Motta.
- Explique-se melhor. – pediu a dama.

E dirigindo-se ao assessor, o detetive perguntou:

- Senhor Lopes, o senhor disse que chegou às 12h30 com a governanta e que foi acompanhado até à cozinha pelo mordomo, não foi?
- Sim...
- Mentira! – gritou a governanta. – Ele chegou às 12h, comigo, e foi sozinho para a cozinha!
- Ele está parcialmente mentindo. – disse calmamente o detetive.
- Como assim? – foi a pergunta geral, inclusive do assessor.
- Ele “pensa” ter chegado às 12h30. – o detetive sorriu. – Reparei que o senhor Lopes tem o cacoete de polir o visor de seu relógio lambendo-o e, ao fazer isso, ele alterou a hora, adiantando-a em 30 minutos. Podem checar.

Mais uma vez, o burburinho se estabeleceu. Alguns segundos depois, todos confirmaram ser verdadeira a afirmação do detetive Gonçalo.

- No entanto, ele mentiu sobre ter sido acompanhado pelo mordomo até a cozinha. Aliás, ninguém foi acompanhado pelo mordomo quando chegou, mas disseram isso por ser a rotina da casa e não quiseram se colocar em evidência.
- Oh... foi a resposta geral, inclusive da senhora Lamarck.

O detetive continuou:

- Senhora Müller, por que disse que o mordomo já estava guardando as compras quando foi ajudá-lo na despensa, se elas ainda estavam do lado de fora?
- Eu, e-eu... – a governanta gaguejou.
- Eu digo o porquê! A senhora viu o mordomo digitando a senha da porta e, nesse momento, percebeu que era a mesma senha do cartão de compras! Ficou com medo dessa informação e preferiu dizer que ele já estava lá dentro, não foi?
- F-foi, mas...
- Percebi que o senhor Thompson é destro quando ele teve que tatear o bolso para retirar os óculos, demonstrando a dificuldade em usar a mão esquerda. Esse também foi o motivo dele não ter recebido nenhum de vocês, pois não conseguiria manusear a chave da porta, uma vez que está com a mão direita imobilizada.
- Então, foi a senhora Müller quem me roubou! – bradou a senhora Lamarck!

E, de novo, a troca de acusações entre os empregados – Como eles não perceberam que a senhora Müller era a ladra! Aquela velha frígida, amargurada, sempre desejando o que é dos outros. Merecia a cadeira elétrica! – E o detetive Gonçalo apenas sorriu, magnetizado pelas reações tão animalescas e tão humanas.

- Silêncio! Por favor, calem-se!

Todos obedeceram. A senhora Lamarck estava confusa. Será que o detetive, realmente, sabia quem era o ladrão?
O detetive Gonçalo suspirou profundamente. Era chegado o momento.

- Senhor Lopes, o senhor disse ter descido às 18h acompanhado pela senhorita Marques, correto?
- Correto.
- Mas, agora, sabemos que o seu relógio está adiantado 30 minutos, certo?
- Certo.
- Então, o senhor desceu, na verdade, às 17h30.
- Ah... é mesmo.
- Senhorita Marques, a senhorita omitiu que ficou 20 minutos fora da biblioteca quando retornou do almoço.
- Eu não achei relevante porque...

Mas o detetive não a deixou continuar e disse em um único fôlego:

- Sim! Porque nada aconteceu nesses 20 minutos, exceto o fato de, nesse tempo, o senhor Lopes estar se acomodando em sua mesa, ligando seu computador, acessando o e-mail da senhora Lamarck e, sem perceber, ele digitou a senha no exato momento em que a senhorita passava por sua mesa (que fica do lado oposto, lembra?) e percebeu ser a mesma do cartão do banco. Um tremendo golpe de sorte!
- Mas, m-mas...
- Às 17h30 o senhor Lopes a chamou para ir embora, pensando já ser 18h. A senhorita aproveitou a oportunidade, desceu com ele, mas não foi embora com ele! Permaneceu na casa, foi ao quarto reservado, testou a senha, que funcionou! Abriu o cofre e pegou a pulseira!

Nova confusão. Agora, todos acusavam a secretária, que chorava copiosamente, enquanto suas lágrimas começavam a preencher o vão entre os seios, unidos pelo sutiã meia-taça usado sob o generoso decote.

A senhorita Marques saiu algemada, acompanhada pelo policial Motta, sob os olhares dos colegas que, a essa altura, já conversavam entre si declarando que nunca haviam confiado naquela mulherzinha de tão baixo nível!

E, assim, o detetive Gonçalo desvendou o caso da pulseira roubada, aproveitando a oportunidade de observar algo que sempre o encantava: o comportamento humano.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O caso da pulseira roubada – Parte 1

O detetive Gonçalo chegou à mansão da senhora Lamarck acompanhado do policial Motta. Encontrou a distinta dama desolada e chorosa pelo roubo de valiosa pulseira de rubis, retirada de seu cofre localizado em um dos cômodos reservados da casa.

- Bom dia, senhora Lamarck. Sou o detetive Gonçalo e este é o policial Motta. Estamos aqui para atender a uma denúncia de roubo.
- Ah, cavalheiros, graças a Deus os senhores chegaram! Não quero perder um minuto sequer. A demora pode significar jamais recuperar um bem tão valioso para mim. Não apenas pelo valor financeiro, que não é pouco, mas pelo valor afetivo também. Trata-se de uma jóia que está em minha família há mais de um século! – e apontou para um suntuoso sofá. – Por favor, sentem-se.

Os dois representantes da lei sentaram-se não muito à vontade, pois ambos tiveram a sensação de que o tecido áspero e ordinário de suas roupas poderia danificar a seda cara e macia do mobiliário.

- Mas, então, senhora Lamarck, quando deu por falta da pulseira? – o detetive Gonçalo perguntou, enquanto tentava não escorregar do sofá.
- Faz cinco horas que percebi que havia sido roubada. – a dama respondeu lamuriosa. – Eu raramente a uso, pois é muito chamativa e eu sou uma pessoa discreta. Não gosto de chamar a atenção nos ambientes que frequento. No entanto, há dois dias eu a usei para ir a um jantar beneficente, pois a princesa de Muxibaba estaria presente e sei que ela é uma apreciadora de jóias. Queria que ela admirasse minha pulseira.
- Entendo... – comentou o detetive. – E ela estava bem?
- Quem? A princesa? – a senhora Lamarck estranhou a pergunta.
- Não, a pulseira. – explicou o detetive.
- Ah, sim, estava. Mas ela me decepcionou.
- Quem? A pulseira? – o detetive estranhou o comentário.
- Não, a princesa. – explicou a senhora Lamarck.
- Ah... entendo... De que forma?
- Ela ficou deslumbrada com a pulseira e pediu para vê-la em suas mãos.
- E a senhora deixou? – perguntou o detetive.
- Sim, deixei, e me arrependo por isso.
- Por quê? – o detetive Gonçalo perguntou surpreso.
- Porque ela caiu no chão.
- Quem? A princesa? – perguntou o policial Motta.
- Nããão!!!! A pulseira!!! – responderam o detetive Gonçalo e a senhora Lamarck juntos.
- E o que aconteceu? – o detetive quis saber.
- Um dos rubis ficou levemente arranhado.
- Entendo... e depois?
- Bem, quando cheguei em casa, guardei-a no cofre. Então, hoje pela manhã, resolvi pegá-la para avaliar o dano e levá-la ao joalheiro. Talvez fosse possível polir a pedra arranhada.
- E foi aí que deu por falta dela?
- Sim. Quando abri o cofre, ela não estava lá. – a senhora Lamarck ficou com os olhos marejados.
- Muito bem. Não se preocupe, iremos descobrir quem a roubou. – o detetive Gonçalo disse com total segurança. – O cofre foi arrombado?
- Não.
- A senhora recebeu alguma visita depois que guardou a pulseira no cofre?
- Não.
- Alguém mais da casa sabe a senha dele?
- Não. – ela fez uma pausa. – Quer dizer... mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- É que a senha do cofre é a mesma do meu e-mail, do meu cartão do banco, do cartão de compras e do acesso à despensa.
- Uau! A senhora não deveria fazer isso! – o detetive recriminou-a com delicadeza.
- Eu sei, mas é tão difícil decorar senhas diferentes. – ela respondeu constrangida.
- E alguém tem conhecimento disso?
- Não. Mas eu tenho quatro empregados de confiança. Cada um tem acesso a uma senha, mas eles não sabem que é a mesma.
- Explique melhor. – o detetive pediu.
- É assim, minha secretária sabe a senha do cartão do banco. Minha governanta sabe a senha do cartão de compras. Meu mordomo sabe a senha da despensa. E o meu assessor sabe a senha do meu e-mail.
- E eles nunca desconfiaram que era a mesma senha?
- Nunca. Tenho certeza absoluta disso.
- Nesse caso, terei que conversar com cada um deles. – e virando-se para o policial Motta. – Vamos amigo, vamos desvendar este furto!

Minutos depois, o detetive Gonçalo e o policial Motta estavam acomodados na biblioteca da mansão, quando a secretária da senhora Lamarck entrou no recinto.

- Senhorita Marques, por favor, sente-se.
- Obrigada.
- Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – ela ajeitou o decote tentando cobrir o que não era passível de ser coberto.
- Diga-nos o que fez ontem.
- Certo. Eu cheguei à mansão por volta das 8h30 e vim direto para a biblioteca, pois o computador onde organizo as finanças da senhora Lamarck fica aqui.
- E ficou até que horas?
- Trabalhei direto até às 12h30. Depois desci para a cozinha, para almoçar com os outro empregados.
- E depois?
- Voltei para a biblioteca e só saí às 18h para ir embora.
- Circulou sozinha pela casa?
- Não. O mordomo me acompanhou quando cheguei. Na hora do almoço, a governanta veio me chamar e eu desci com ela. Quando subi, o assessor veio junto, pois ele iria usar o outro computador (- aquele ali, do lado oposto do meu) para checar os e-mails da senhora Lamarck. Fomos embora juntos.
- Só isso?
- Só.
- Está bem. Pode ir.
- Obrigada.

Em seguida, o detetive Gonçalo e o policial Motta receberam o assessor.

- Por favor, sente-se senhor Lopes. – o detetive apontou uma cadeira. – Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – o assessor lambeu o visor do relógio de pulso e começou a poli-lo com a camisa.
- Diga-nos como foi o seu dia ontem.
- Ok. Eu cheguei à mansão às 12h30 e fui direto para a cozinha, pois já estavam servindo o almoço dos empregados.
- E depois?
- Vim para a biblioteca para checar os e-mails da senhora Lamarck.
- Circulou sozinho pela casa em algum momento?
- Não. O mordomo me acompanhou da porta à cozinha e a secretária subiu comigo até a porta da biblioteca.
- E ela não entrou?
- De imediato não. Quando chegamos à porta, ela disse que iria ao toilette e só retornou 20 minutos depois.
- Entendo... e depois?
- Depois trabalhamos até às 18h e descemos juntos.
- Só isso?
- Só.
- Está certo. Então, pode ir.
- Obrigado.

O detetive e o policial se entreolharam. A secretária omitira a ida ao toilette. Por quê?
A governanta entrou na biblioteca.

- Senhora Müller, sente-se, por gentileza. Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sim. – a governanta puxou uma lixa de unha do bolso do uniforme e começou a usá-la.
- Conte-nos o que fez ontem.
- Bem, eu cheguei à casa às 8h e fui direto ao quarto da senhora Lamarck.
- Sozinha?
- Não, o mordomo me acompanhou.
- E depois?
- Peguei o cartão de compras e saí. Só retornei às 12h, no mesmo momento em que o assessor chegava. Fui com o mordomo deixar às compras na despensa. Em seguida, subi à biblioteca para chamar a secretária para almoçar. Quando terminei, voltei à despensa, pois o mordomo já estava lá e não conseguia organizar as compras. Ele está com o braço direito imobilizado por uma tendinite. Terminamos por volta das 17h e fomos aos aposentos da senhora Lamarck para saber se precisava de algo.
- E ela precisava?
- Não exatamente. Dispensou o mordomo e ficou comigo passando a nota das compras. Às 18h terminamos e ela me acompanhou até a porta de saída.
- Só isso?
- Só.
- Tudo bem, pode ir.
- Obrigada.

Mais uma vez o detetive e o policial de entreolharam. O assessor disse ter chegado às 12h30, mas a governanta afirmou que ele chegou às 12h junto com ela. O mordomo entrou no recinto. Conforme a governanta havia dito, tinha o braço direito imobilizado por uma tala.

- Senhor Thompson, sente-se. Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – o mordomo respondeu enquanto tateava o bolso da camisa, com a mão esquerda, em busca dos óculos.
- Conte-nos suas atividades de ontem.
- Cheguei à mansão às 7h30, mas não entrei logo na casa.
- Não? Por quê?
- Porque faz parte das minhas atribuições distribuir as tarefas do jardineiro e do caseiro. Entrei pelos fundos e fiquei conversando com o pessoal da cozinha até umas 9h.
- E não abriu a porta para a governanta?
- Não. Ela tem a chave.
- E nem para a secretária?
- Não. A governanta abriu.
- Também não abriu para o assessor?
- Também não, pois ele chegou junto com a governanta e ela abriu.
- Ok. E depois?
- Pedi à governanta que deixasse as compras na porta da despensa. Em geral, eu pego as compras no carro para guardá-las, mas, com o braço assim, não pude fazê-lo.
- E depois?
- Fomos almoçar.
- E depois?
- Fui com a governanta até a despensa, pois não podia deixar as compras do lado de fora. Pedi que me ajudasse a organizá-las.
- E...?
- Terminamos por volta das 17h e fomos aos aposentos da senhora Lamarck para saber se precisava de algo.
- E ela precisava?
- De mim, não. Mas segurou a governanta.
- E o que você fez?
- Voltei para a cozinha e fiquei lá até às 18h. Fui embora pela porta dos fundos.
- Só isso?
- Só.
- Então, pode ir.
- Obrigado.

Depois que o mordomo saiu, o policial Motta olhou para o detetive Gonçalo e bradou:

- Que caso difícil! Todos mentiram, como iremos desvendar este crime?
- Mas você não poderia estar mais enganado, meu caro amigo desatento. Este caso já está resolvido! Venha, vamos falar com a senhora Lamarck! São 17h20, em 40 minutos os empregados irão embora e não podemos deixar o bandido fugir. É possível que nossa presença o tenha deixado receoso e ele não retorne à casa. Vamos!

(Continua...)