terça-feira, 28 de junho de 2011

Ladrão do tempo


Não existe tempo pior empregado, nem mesmo o ócio vazio, do que aquele que disperdiçamos por conta dos egoístas que, espertamente, creem que a natureza divina que dá ordem ao Universo, seja a mesma força invisível que, infrutiferamente, tenta dar ordem ao caos que eles impõem ao ambiente que compartilham socialmente.
Eu tô cansada dessa gente esquisita, bagunceira e aflita que, sem tempo para nada, rouba, descarada e impunemente, o tempo que eu, organizada e conscientemente, conquistei às custas de muita disciplina. Abri mão da novela, do cabelo alisado, da comida feita em casa... tudo isso para ter um momento de lazer na varanda do apê.
Olhar a lua e as estrelas, fumar um cigarro (mesmo que isso não seja lá um hábito muito saudável). O certo é que eu tirei daqui e pus ali, para que, ao final do dia, poucas horas me sobrassem para acender um incenso, tomar um drink e escrever algumas linhas que, pouco a pouco, vão tomando a forma de um livro. Mas o egoísmo coletivo e o individualismo de algumas pessoas arranca, dia-a-dia, um pouco mais do tempo que já não tenho tempo de ter. Dividir tarefas? Isso já se faz, mas não creio que seja uma divisão justa, pois eu arrumo e o outro bagunça. Viram só?
E quanta paciência me falta para ouvir o discurso ofendido do ladrão quando se vê pego em flagrante. Reclama e sofre com tanta profundidade da alma, que o pobrezinho até crê serem verdadeiras as palavras vazias com que declama sua indignação. Ainda bem que não está no Congresso, pois seria mais um a roubar e depois discursar com o coração cheio de mágoa. Que diferença faz se rouba tempo, chocolate ou dinheiro público? Se ainda tivesse espírito de Robin Hood e dedicasse o tempo que me rouba aos pobres!
Enfim, eu tô cansada dessa gente mimada, porca e relaxada, que faz da minha casa, que tanto amo, um chiqueiro moderno, tecnológico até. Esse povo não sabe que juntar papel é antiecológico? Eu tô cansada de estar cansada, então, a nova lei é esta: “Quer ser respeitado? Vai ter que respeitar também! Usou, não guardou e não é meu; não tô nem aí, vai pro lixo, valeu?”


texto escrito, provavelmente, em 2009.

domingo, 26 de junho de 2011

Casamento na Roça


O Padre está no altar quase dormindo em pé. A noiva (barriguda), anda de um lado para outro, roendo as unhas, a mãe tenta consolá-la, mas ela permanece aflita.

Barulho de tiro.

Os convidados se assustam, a noiva abraça a mãe, o padre quase cai do altar.

Noiva: Ai minha mãezinha, que baruio foi esse?

Padre (olhando para o céu): Deve ter sido São Pedro mandando um trovão...

O pai da noiva (Coronel Tião Matamil) entra na Igreja, arrastando o noivo pela orelha com uma mão e segurando uma espingarda com a outra.

Coronel Matamil: Que truvão que nada seu Padre, foi a Gracinha mandano um arviso prum sujeitim safado.

Padre: Gracinha, mas quem é Gracinha seu Coronel?

Coronel: Ara seu Padre! Cum todo respeito que lhe tenho, mas que lezera, sô! Gracinha é essa belezura que tá aqui na minha mão. (Mostra a espingarda e dá um beijo nela).

Padre: Mas por que Gracinha seu Coronel?

Coronel: Olhe só seu Padre. (O Coronel aponta a espingarda na cara do noivo que se treme mais do que nunca). Ela é ou não é uma Gracinha?

Noivo: É claro que é seu Coronér, claro que é. (O noivo dá um beijinho na espingarda). Que Gracinha, que Gracinha.

A noiva corre para o noivo e se abraça a ele.

Noiva: Ara paizinho, sorta meu noivo, assim ocê vai matá o coitadim.

Mãe da noiva: Carma Tião, sorta o menino.

O noivo faz cara de coitadinho e se aconchega na noiva.

Coronel: Mas se eu sortá ele, o danado foge e eu vou tê de fazê o disgramado beijá a Gracinha antes de beijá a Chiquinha. (O noivo se encolhe mais ainda e agarra a noiva. O Coronel se revolta). E ocê larga dela seu cabra safado, vai casá primero.

Padre: O senhor me desculpe Coronel, mas depois disso (aponta para a barriga da noiva), que diferença faz...

Coronel (furioso): Seu Padre, seu padre, faça logo esse casório e deixe de prosa, que eu acabo esqueceno que o senhor é quem é.

Mãe da noiva: Ô Tião, isso são modos de falá com o Padre?

Padre (desconcertado, pigarreando): Muito bem então. (Se dirigindo aos noivos) Fiquem aqui meus filhos.

Os noivos ficam ao lado um do outro, de frente para o Padre. O Coronel fica ao lado da esposa e de cara feia para o noivo, que mal tem coragem de olhar para o sogro.

Padre: Chiquinha Dadivosa, promete dar seu coração completamente para seu noivo?

Noivo: Só o coração seu Padre?

Coronel (dando um tapa na cabeça do noivo): É que o resto ela já te deu seu cabra da muléstia. (A noiva faz carinho na cabeça do noivo)

Mãe do Noiva: Ô Tião, ocê se acarme hômi.

Noiva: Pára paizinho, assim ocê arranca a cabeça dele.

Coronel: Mas eu tô mesmo é com vontade de arrancar outra cabeça. (o noivo põe a mão entre as pernas e engole seco)

Noiva (se colocando entre o noivo e o pai): Paizinho!!! Ocê qué me deixá viúva antes de eu casá?

Coronel: Antes não, qui tu fica falada, mas dispois...

Mãe da Noiva: Deixa de bobageira Tião.

Padre: Calma, calma. Vamos continuar a cerimônia. Zé Jumento, promete preencher a vida de sua noiva de felicidade todos os dias de sua vida?

Noiva: Mas seu Padre, se o Zé me preenchê trêis vêiz por semana, eu já vô sê muito feliz. (Os noivos se olham cheios de dengo e sorrindo um pro outro)

Coronel (irritado): Ara, deixa de falá asneira menina. (falando com o Padre). Abençoa logo isso antes que eu mostre pruquê sou o Coronér Matamil... pruquê até agora foram 999 que eu mandei conversar com São Pedro, só farta mais um.

Padre: Está bem, está bem. Com o poder a mim dado por Deus, eu os declaro marido e mulher. O noivo pode beijar a noiva.

Coronel: Que beijá noiva que nada, vamo andando, vamo andano antes que eu mude de idéia e arresorva te deixá viúva aqui mesmo.

Noiva: Pára paizinho, agora já casamo, deixa o Zé em paz.

Coronel: Pois é melhó esse Zé Jumento sair da minha frente antes que eu atransforme ele em égua.

O noivo sai correndo, o Coronel atrás, a noiva sai chorando e brigando com o pai, a mãe corre atrás da filha e o Padre, por último, vai fazendo o sinal da cruz.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Sorriso de menino


Era apenas o sorriso de um menino
E eu pensava que ele
Estava só brincando de amar
E quis brincar também
Já que a vida, sempre tão séria
Exigia mais do que eu podia dar

E na minha arrogância
De quem viveu mais
Não percebi que a brincadeira
Era mais séria do que toda a vida
Vivida à toa, vazia
Levada de qualquer maneira

Vi no amor um inimigo
E naquele sorriso, um perigo
Tentei, então, o impossível
Esquecer o inesquecível
O contraste das peles suadas
Sob o lençol, duas almas apaixonadas

Mas eu sabia sobre todas as coisas
Inclusive, o que era melhor para todos
Tão prepotente e tão ingênua
Que a vida se encarregaria
De castigar sem clemência
Pelo crime, sem perdão
Submeter o amor à negligência

E castigo mais cruel tem sido
Enxergar o sorriso do menino
Em todos os sonhos, por todos os dias
E ambicionar o amor do homem
E desejar o corpo do amante
E rezar já sem esperança
E chorar baixinho, feito criança

E a mulher tão autossuficiente
Possui hoje, uma maldição
Ser amada, sem amar
E por não tê-lo pedido em casamento
Tem, hoje, um coração arrependido
Pois foi o único homem a quem desejou
Ter ao lado como marido

quinta-feira, 23 de junho de 2011

História


Reparti meus pensamentos na História, e
Imaginei uma fuga.
Caminhei sem destino, e
Achando que podia te encontrar,
Resolvi te procurar.
Debaixo de um sorriso, minha angústia,
Onde está você?

Eu te procuro, mas,

Como posso te encontrar?
Ruas cheias de pessoas,
Indiferentes ao meu desespero.
Sua ausência, meu vazio.
Tempo curto, telefone ocupado...
Isso me deixa indecisa,
Agora faltam três minutos,
Não sei o que fazer, a História me chama
Eu grito! Eu choro, eu morro... Eu volto para a aula...

DUAS EXPRESSÕES, UM POEMA


Era doce o amargo do teu ser, onde escondi-me de tantos monstros.
Sem a luz do Sol, sem o branco da Lua, eu segui teus passos.
Sim, segui. Foi tão mitológico este caminho e, por último, tão imprevisível.
Se não fosse Ariadne, como acharia a saída?
Mas ela, tão acostumada ao labirinto das tuas idéias
e temerosa que mais um ser lá se perdesse, ou pior, sucumbisse diante do monstro
meio homem, meio fera... salvou-me e, agora,
enfrento meus próprios pesadelos e vivo minhas próprias fantasias.
Hoje, vivo a realidade de muitas ficções
E não mais a ficção de viver algo que não é real.

Tão doce esta carne esponjosa e amarga que me abrigou das bestas.
Era escuro o dia e eu não podia ver os pirilampos ao anoitecer.
Por isso, segui os vermes que se rastejavam sobre o nada.
Se não fosse Ariadne, como acharia a saída?
Mas ela, acostumada com o cheiro putrefato das tuas idéias
e temerosa que a besta meio homem, meio fera
proibisse o brilho das estrelas, salvou-me.
Agora, enfrento os seres alados e os homens sem cabeça.
Porém, são parte do meu ventre, eu os pari, eu os sei.
E não a prisão virtual dos teus órgãos vitais.