domingo, 15 de janeiro de 2012

Uma semente foi plantada

O céu amanheceu de uma cor qualquer. Ela não se deu ao trabalho de olhá-lo. Com certeza seria um dia diferente. Olhou o relógio desnecessariamente, pois sabia que era a hora de todos os dias.

Estava ansiosa, muito ansiosa. O dia iria demorar a passar. Estaria fazendo a coisa certa? Buscou uma frase, uma palavra, um sinal... qualquer coisa que a fizesse desistir, mas tudo aconteceu de forma inversa.

Então, ela foi. E encontrou o perfume envolvente, a palavra gentil, o gesto carinhoso, o olhar de desejo, o beijo apaixonado. Quatro horas pareceram quatro minutos. O sono foi pouco para tantos sonhos. O bom dia chegou e ela reparou que o céu estava lindamente azul. Sorriu e esperou.

Estava ansiosa, muito ansiosa. O dia iria demorar a passar. Então, de novo veio o beijo, o abraço, o cheiro, o riso. O passeio de mãos dadas, a conversa animada. O que fizeram com as horas? Elas não duram mais sessenta minutos?

Você disse “o primeiro dia do resto de nossas vidas”
Eu disse “o segundo dia do resto de nossas vidas”

Seu bom dia já chegou. E me pareceu ouvir aquele sussurro no ouvido que arrepia e dá prazer.

Eu estava perdida e você me encontrou.
Eu estava triste e você me alegrou.
Queria te chamar de amigo,
Mas acho que te chamarei de amor!

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O caso da pulseira roubada – Parte 2

Depois de interrogar os quatro empregados de confiança da senhora Lamarck, o detetive Gonçalo deixou a biblioteca acompanhado pelo policial Motta e dirigiu-se à sala de estar, onde era aguardado ansiosamente pela dona da casa.

A senhora Lamarck andava de um lado para o outro, certamente, não acreditando que fosse possível prender o gatuno que furtara sua preciosa pulseira de rubis. Ao perceber a aproximação dos representantes da lei, ela correu em direção a eles.

- E então detetive? Descobriu quem roubou minha pulseira? Não posso crer que um de meus empregados fez disso!
- Mas creia senhora Lamarck, creia! – o detetive disse enfático. – Peço que os reúna aqui imediatamente!

Atendendo ao pedido do detetive Gonçalo, a senhora Lamarck foi com o policial Motta convocar os quatro empregados de confiança da casa.

Em poucos minutos, todos estavam reunidos no ambiente, acomodados no luxuoso sofá e nas aconchegantes poltronas e cadeiras que compunham a decoração da sala.

O detetive permanecia em pé. Olhou um a um dos presentes, abaixou a cabeça, coçou o queixo e, de repente, apontou para o mordomo.

- Senhor Thompson, por que roubou a pulseira?

Todos se entreolharam chocados e aliviados de terem sido inocentados com aquela acusação. O mordomo, no entanto, reagiu com aspereza.

- Detetive! Como pode me acusar assim? Isto é uma calúnia! Baseado em quê, o senhor me acusa?

Mas antes que o detetive Gonçalo pudesse responder, houve um rompante de vozes.

- Eu sabia! Sempre é o mordomo!
- Prende ele, prende!
- Ladrão!
- Falso!
- Vai ver foi ele quem roubou minha caneta do Mickey!
- A caneta do Mickey era sua?
- Era, por quê?
- Ih, fui eu que deixei cair no chão e o cachorro estraçalhou ela todinha.
- Oh! Mas o sanduíche de presunto que eu coloquei em cima da mesa, com certeza, foi ele quem comeu!
- Foi não, foi o cachorro também...
- E o chocolate que...?
- Cachorro...

Por alguns minutos o detetive não interferiu, preferindo observar o quão volúvel é a natureza humana. Bastou apenas uma acusação, sem provas, e todos se voltaram contra o colega. De repente, o mordomo se tornou o culpado de todos os pequenos desaparecimentos inexplicáveis. E todos estavam convictos de que ele era o criminoso.

- Calem-se! Já chega! – bradou o detetive. – O mordomo não é o culpado!

Ao ouvirem a declaração do detetive, todos silenciaram. A senhora Lamarck olhou atônita, sem entender.

- Mas, então, detetive, se não foi ele, quem foi?
- Senhora Lamarck, todos os seus empregados mentiram no depoimento.
- Oh... – foi a resposta geral, inclusive do policial Motta.
- Explique-se melhor. – pediu a dama.

E dirigindo-se ao assessor, o detetive perguntou:

- Senhor Lopes, o senhor disse que chegou às 12h30 com a governanta e que foi acompanhado até à cozinha pelo mordomo, não foi?
- Sim...
- Mentira! – gritou a governanta. – Ele chegou às 12h, comigo, e foi sozinho para a cozinha!
- Ele está parcialmente mentindo. – disse calmamente o detetive.
- Como assim? – foi a pergunta geral, inclusive do assessor.
- Ele “pensa” ter chegado às 12h30. – o detetive sorriu. – Reparei que o senhor Lopes tem o cacoete de polir o visor de seu relógio lambendo-o e, ao fazer isso, ele alterou a hora, adiantando-a em 30 minutos. Podem checar.

Mais uma vez, o burburinho se estabeleceu. Alguns segundos depois, todos confirmaram ser verdadeira a afirmação do detetive Gonçalo.

- No entanto, ele mentiu sobre ter sido acompanhado pelo mordomo até a cozinha. Aliás, ninguém foi acompanhado pelo mordomo quando chegou, mas disseram isso por ser a rotina da casa e não quiseram se colocar em evidência.
- Oh... foi a resposta geral, inclusive da senhora Lamarck.

O detetive continuou:

- Senhora Müller, por que disse que o mordomo já estava guardando as compras quando foi ajudá-lo na despensa, se elas ainda estavam do lado de fora?
- Eu, e-eu... – a governanta gaguejou.
- Eu digo o porquê! A senhora viu o mordomo digitando a senha da porta e, nesse momento, percebeu que era a mesma senha do cartão de compras! Ficou com medo dessa informação e preferiu dizer que ele já estava lá dentro, não foi?
- F-foi, mas...
- Percebi que o senhor Thompson é destro quando ele teve que tatear o bolso para retirar os óculos, demonstrando a dificuldade em usar a mão esquerda. Esse também foi o motivo dele não ter recebido nenhum de vocês, pois não conseguiria manusear a chave da porta, uma vez que está com a mão direita imobilizada.
- Então, foi a senhora Müller quem me roubou! – bradou a senhora Lamarck!

E, de novo, a troca de acusações entre os empregados – Como eles não perceberam que a senhora Müller era a ladra! Aquela velha frígida, amargurada, sempre desejando o que é dos outros. Merecia a cadeira elétrica! – E o detetive Gonçalo apenas sorriu, magnetizado pelas reações tão animalescas e tão humanas.

- Silêncio! Por favor, calem-se!

Todos obedeceram. A senhora Lamarck estava confusa. Será que o detetive, realmente, sabia quem era o ladrão?
O detetive Gonçalo suspirou profundamente. Era chegado o momento.

- Senhor Lopes, o senhor disse ter descido às 18h acompanhado pela senhorita Marques, correto?
- Correto.
- Mas, agora, sabemos que o seu relógio está adiantado 30 minutos, certo?
- Certo.
- Então, o senhor desceu, na verdade, às 17h30.
- Ah... é mesmo.
- Senhorita Marques, a senhorita omitiu que ficou 20 minutos fora da biblioteca quando retornou do almoço.
- Eu não achei relevante porque...

Mas o detetive não a deixou continuar e disse em um único fôlego:

- Sim! Porque nada aconteceu nesses 20 minutos, exceto o fato de, nesse tempo, o senhor Lopes estar se acomodando em sua mesa, ligando seu computador, acessando o e-mail da senhora Lamarck e, sem perceber, ele digitou a senha no exato momento em que a senhorita passava por sua mesa (que fica do lado oposto, lembra?) e percebeu ser a mesma do cartão do banco. Um tremendo golpe de sorte!
- Mas, m-mas...
- Às 17h30 o senhor Lopes a chamou para ir embora, pensando já ser 18h. A senhorita aproveitou a oportunidade, desceu com ele, mas não foi embora com ele! Permaneceu na casa, foi ao quarto reservado, testou a senha, que funcionou! Abriu o cofre e pegou a pulseira!

Nova confusão. Agora, todos acusavam a secretária, que chorava copiosamente, enquanto suas lágrimas começavam a preencher o vão entre os seios, unidos pelo sutiã meia-taça usado sob o generoso decote.

A senhorita Marques saiu algemada, acompanhada pelo policial Motta, sob os olhares dos colegas que, a essa altura, já conversavam entre si declarando que nunca haviam confiado naquela mulherzinha de tão baixo nível!

E, assim, o detetive Gonçalo desvendou o caso da pulseira roubada, aproveitando a oportunidade de observar algo que sempre o encantava: o comportamento humano.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O caso da pulseira roubada – Parte 1

O detetive Gonçalo chegou à mansão da senhora Lamarck acompanhado do policial Motta. Encontrou a distinta dama desolada e chorosa pelo roubo de valiosa pulseira de rubis, retirada de seu cofre localizado em um dos cômodos reservados da casa.

- Bom dia, senhora Lamarck. Sou o detetive Gonçalo e este é o policial Motta. Estamos aqui para atender a uma denúncia de roubo.
- Ah, cavalheiros, graças a Deus os senhores chegaram! Não quero perder um minuto sequer. A demora pode significar jamais recuperar um bem tão valioso para mim. Não apenas pelo valor financeiro, que não é pouco, mas pelo valor afetivo também. Trata-se de uma jóia que está em minha família há mais de um século! – e apontou para um suntuoso sofá. – Por favor, sentem-se.

Os dois representantes da lei sentaram-se não muito à vontade, pois ambos tiveram a sensação de que o tecido áspero e ordinário de suas roupas poderia danificar a seda cara e macia do mobiliário.

- Mas, então, senhora Lamarck, quando deu por falta da pulseira? – o detetive Gonçalo perguntou, enquanto tentava não escorregar do sofá.
- Faz cinco horas que percebi que havia sido roubada. – a dama respondeu lamuriosa. – Eu raramente a uso, pois é muito chamativa e eu sou uma pessoa discreta. Não gosto de chamar a atenção nos ambientes que frequento. No entanto, há dois dias eu a usei para ir a um jantar beneficente, pois a princesa de Muxibaba estaria presente e sei que ela é uma apreciadora de jóias. Queria que ela admirasse minha pulseira.
- Entendo... – comentou o detetive. – E ela estava bem?
- Quem? A princesa? – a senhora Lamarck estranhou a pergunta.
- Não, a pulseira. – explicou o detetive.
- Ah, sim, estava. Mas ela me decepcionou.
- Quem? A pulseira? – o detetive estranhou o comentário.
- Não, a princesa. – explicou a senhora Lamarck.
- Ah... entendo... De que forma?
- Ela ficou deslumbrada com a pulseira e pediu para vê-la em suas mãos.
- E a senhora deixou? – perguntou o detetive.
- Sim, deixei, e me arrependo por isso.
- Por quê? – o detetive Gonçalo perguntou surpreso.
- Porque ela caiu no chão.
- Quem? A princesa? – perguntou o policial Motta.
- Nããão!!!! A pulseira!!! – responderam o detetive Gonçalo e a senhora Lamarck juntos.
- E o que aconteceu? – o detetive quis saber.
- Um dos rubis ficou levemente arranhado.
- Entendo... e depois?
- Bem, quando cheguei em casa, guardei-a no cofre. Então, hoje pela manhã, resolvi pegá-la para avaliar o dano e levá-la ao joalheiro. Talvez fosse possível polir a pedra arranhada.
- E foi aí que deu por falta dela?
- Sim. Quando abri o cofre, ela não estava lá. – a senhora Lamarck ficou com os olhos marejados.
- Muito bem. Não se preocupe, iremos descobrir quem a roubou. – o detetive Gonçalo disse com total segurança. – O cofre foi arrombado?
- Não.
- A senhora recebeu alguma visita depois que guardou a pulseira no cofre?
- Não.
- Alguém mais da casa sabe a senha dele?
- Não. – ela fez uma pausa. – Quer dizer... mais ou menos.
- Como assim, mais ou menos?
- É que a senha do cofre é a mesma do meu e-mail, do meu cartão do banco, do cartão de compras e do acesso à despensa.
- Uau! A senhora não deveria fazer isso! – o detetive recriminou-a com delicadeza.
- Eu sei, mas é tão difícil decorar senhas diferentes. – ela respondeu constrangida.
- E alguém tem conhecimento disso?
- Não. Mas eu tenho quatro empregados de confiança. Cada um tem acesso a uma senha, mas eles não sabem que é a mesma.
- Explique melhor. – o detetive pediu.
- É assim, minha secretária sabe a senha do cartão do banco. Minha governanta sabe a senha do cartão de compras. Meu mordomo sabe a senha da despensa. E o meu assessor sabe a senha do meu e-mail.
- E eles nunca desconfiaram que era a mesma senha?
- Nunca. Tenho certeza absoluta disso.
- Nesse caso, terei que conversar com cada um deles. – e virando-se para o policial Motta. – Vamos amigo, vamos desvendar este furto!

Minutos depois, o detetive Gonçalo e o policial Motta estavam acomodados na biblioteca da mansão, quando a secretária da senhora Lamarck entrou no recinto.

- Senhorita Marques, por favor, sente-se.
- Obrigada.
- Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – ela ajeitou o decote tentando cobrir o que não era passível de ser coberto.
- Diga-nos o que fez ontem.
- Certo. Eu cheguei à mansão por volta das 8h30 e vim direto para a biblioteca, pois o computador onde organizo as finanças da senhora Lamarck fica aqui.
- E ficou até que horas?
- Trabalhei direto até às 12h30. Depois desci para a cozinha, para almoçar com os outro empregados.
- E depois?
- Voltei para a biblioteca e só saí às 18h para ir embora.
- Circulou sozinha pela casa?
- Não. O mordomo me acompanhou quando cheguei. Na hora do almoço, a governanta veio me chamar e eu desci com ela. Quando subi, o assessor veio junto, pois ele iria usar o outro computador (- aquele ali, do lado oposto do meu) para checar os e-mails da senhora Lamarck. Fomos embora juntos.
- Só isso?
- Só.
- Está bem. Pode ir.
- Obrigada.

Em seguida, o detetive Gonçalo e o policial Motta receberam o assessor.

- Por favor, sente-se senhor Lopes. – o detetive apontou uma cadeira. – Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – o assessor lambeu o visor do relógio de pulso e começou a poli-lo com a camisa.
- Diga-nos como foi o seu dia ontem.
- Ok. Eu cheguei à mansão às 12h30 e fui direto para a cozinha, pois já estavam servindo o almoço dos empregados.
- E depois?
- Vim para a biblioteca para checar os e-mails da senhora Lamarck.
- Circulou sozinho pela casa em algum momento?
- Não. O mordomo me acompanhou da porta à cozinha e a secretária subiu comigo até a porta da biblioteca.
- E ela não entrou?
- De imediato não. Quando chegamos à porta, ela disse que iria ao toilette e só retornou 20 minutos depois.
- Entendo... e depois?
- Depois trabalhamos até às 18h e descemos juntos.
- Só isso?
- Só.
- Está certo. Então, pode ir.
- Obrigado.

O detetive e o policial se entreolharam. A secretária omitira a ida ao toilette. Por quê?
A governanta entrou na biblioteca.

- Senhora Müller, sente-se, por gentileza. Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sim. – a governanta puxou uma lixa de unha do bolso do uniforme e começou a usá-la.
- Conte-nos o que fez ontem.
- Bem, eu cheguei à casa às 8h e fui direto ao quarto da senhora Lamarck.
- Sozinha?
- Não, o mordomo me acompanhou.
- E depois?
- Peguei o cartão de compras e saí. Só retornei às 12h, no mesmo momento em que o assessor chegava. Fui com o mordomo deixar às compras na despensa. Em seguida, subi à biblioteca para chamar a secretária para almoçar. Quando terminei, voltei à despensa, pois o mordomo já estava lá e não conseguia organizar as compras. Ele está com o braço direito imobilizado por uma tendinite. Terminamos por volta das 17h e fomos aos aposentos da senhora Lamarck para saber se precisava de algo.
- E ela precisava?
- Não exatamente. Dispensou o mordomo e ficou comigo passando a nota das compras. Às 18h terminamos e ela me acompanhou até a porta de saída.
- Só isso?
- Só.
- Tudo bem, pode ir.
- Obrigada.

Mais uma vez o detetive e o policial de entreolharam. O assessor disse ter chegado às 12h30, mas a governanta afirmou que ele chegou às 12h junto com ela. O mordomo entrou no recinto. Conforme a governanta havia dito, tinha o braço direito imobilizado por uma tala.

- Senhor Thompson, sente-se. Sabe porque está aqui e quem somos nós?
- Sei. – o mordomo respondeu enquanto tateava o bolso da camisa, com a mão esquerda, em busca dos óculos.
- Conte-nos suas atividades de ontem.
- Cheguei à mansão às 7h30, mas não entrei logo na casa.
- Não? Por quê?
- Porque faz parte das minhas atribuições distribuir as tarefas do jardineiro e do caseiro. Entrei pelos fundos e fiquei conversando com o pessoal da cozinha até umas 9h.
- E não abriu a porta para a governanta?
- Não. Ela tem a chave.
- E nem para a secretária?
- Não. A governanta abriu.
- Também não abriu para o assessor?
- Também não, pois ele chegou junto com a governanta e ela abriu.
- Ok. E depois?
- Pedi à governanta que deixasse as compras na porta da despensa. Em geral, eu pego as compras no carro para guardá-las, mas, com o braço assim, não pude fazê-lo.
- E depois?
- Fomos almoçar.
- E depois?
- Fui com a governanta até a despensa, pois não podia deixar as compras do lado de fora. Pedi que me ajudasse a organizá-las.
- E...?
- Terminamos por volta das 17h e fomos aos aposentos da senhora Lamarck para saber se precisava de algo.
- E ela precisava?
- De mim, não. Mas segurou a governanta.
- E o que você fez?
- Voltei para a cozinha e fiquei lá até às 18h. Fui embora pela porta dos fundos.
- Só isso?
- Só.
- Então, pode ir.
- Obrigado.

Depois que o mordomo saiu, o policial Motta olhou para o detetive Gonçalo e bradou:

- Que caso difícil! Todos mentiram, como iremos desvendar este crime?
- Mas você não poderia estar mais enganado, meu caro amigo desatento. Este caso já está resolvido! Venha, vamos falar com a senhora Lamarck! São 17h20, em 40 minutos os empregados irão embora e não podemos deixar o bandido fugir. É possível que nossa presença o tenha deixado receoso e ele não retorne à casa. Vamos!

(Continua...)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Férias no mato

Depois de muita insistência, Bia acabou cedendo ao convite da amiga Mari para passar uns dias na casa de seus primos. A relutância de Bia era porque os primos de Mari moravam no meio do mato, literalmente, e ela era uma urbanóide assumida.

- Tem certeza que não tem perigo, Mari?
- Deixa de besteira Bia, meus primos nasceram lá e eu já cansei de passar férias com eles. Estamos bem, não estamos?
- Hum, tá bom. – Bia respondeu, não muito satisfeita.

Sem muito entusiasmo, Bia fez a mala, não esquecendo as coisas que Mari havia indicado, como repelente (colocou logo dois!), sandálias confortáveis, tênis e um casaco.

E lá se foram Bia e Mari para o meio do mato. O receio da primeira só não era maior do que a empolgação da segunda. A viagem, menos desconfortável do que Bia imaginara, serviu para que ela começasse a diminuir a tensão. A receptividade dos primos de Mari, e o calor da casa simples, mas aconchegante, contribuiram ainda mais para que os temores de Bia se dissipassem. Até que, um dia, estavam todos sentados do lado de fora da casa, quando Bia sentiu uma espetada leve na lateral do tornozelo direito. Assim que olhou, deu um grito desesperado e começou a pular desengonçada. Gritava e sacudia o pé enquanto os demais tentavam acalmá-la para que pudessem ver o que era. Bia, finalmente, colocou o pé no chão e gritava apontando com o dedo:

- Ali, ali, vejam, tá grudado no meu tornozelo.

Mas ninguém via nada:

- Onde, Bia, cadê?

Inconformada que ninguém visse o “monstro” que ela estava vendo, criou coragem e abaixou-se para apontar.

(Neste ponto da história será necessário abrirmos um parêntese. Acontece que Bia era míope, mas não assumia. Sempre achou que dava para se virar sem precisar de óculos, até o presente momento. Agora, uma vez que nossos queridos leitores foram esclarecidos desse fato, continuemos a história).

Qual não foi a surpresa e o constrangimento de Bia quando percebeu que o tal “bicho” grudado no tornozelo, não passava da fivela preta de sua sandália, que, provavelmente, a espetara devido ao jeito que estava sentada por cima do pé.

Com o dedo sobre a fivela, teve vontade de sumir dali, desaparecer de vergonha. Ela ouvia as vozes das pessoas a sua volta, todas preocupadas em saber o que a havia picado. Sem coragem de admitir o mico diante de Mari e seus primos, continuou gemendo fingidamente e desabotoou a fivela. Aproveitando-se de uma sinal vermelho de nascença, o qual esperava que Mari nunca tivesse reparado, Bia levantou-se quicando num pé só e dizendo que estava ardendo muito.
Levaram-na para dentro de casa e colocaram seu pé “picado” sobre uma cadeira. Logo, todos estavam examinando o sinal de Bia como se fosse uma queimadura causada por algum bicho que conseguira escapar.

- Você já viu algo assim, primo? – Mari perguntou.
- Assim, assim, vi não, mas já ouvi falar. – e virando-se para o irmão. – O que cê acha?
- Tô achando que é sério... muito sério.

Bia começou a ficar preocupada com a proporção de sua mentira e resolveu diminuir o tamanho da “coisa”.

- Ah, gente, deixa isso pra lá. O bicho já foi embora e nem tá mais ardendo.

Ao dizer isso, os primos de Mari se entreolharam preocupados e o mais velho respondeu.

- Vou lhe dizer uma coisa. Só tem um bicho nessa região, capaz de fazer alguém pular como cê pulou, gritar como cê gritou, deixar essa manchona vermelha que nem queimadura e parar de arder assim, de repente.
- É verdade, meu irmão tá certo. Só tem um bichinho danado capaz de fazer isso.
- É o verme chupador zumbi! – falaram os dois ao mesmo tempo.
- O quêêê???? – Bia e Mari seguraram a mão uma da outra apavoradas. A primeira pelo tamanho da mentira que havia criado e a segunda pelo medo do que aconteceria à amiga, pensando ser verdade.
- É isso mesmo. Só pode ter sido o verme chupador zumbi que fez isso. – o primo mais novo de Mari falou com os olhos arregalados e muito gestual. – Ele gruda na pessoa, coloca os ovinhos invisíveis sob a pele, morre e cai.
- E mesmo que não caísse, do jeito que cê pulou, ia cair. Eu nem sei como seu pé continuou grudado na perna, parecia até que cê tava com os pés na brasa. – completou o primo mais velho.
- O que que a gente faz agora? – Mari perguntou desesperada, cheia de culpa. – O que que vai acontecer com o pé da Bia?

Os primos se entreolharam de novo. Bia estava catatônica. Jamais imaginou que uma mentirinha fosse tão longe. Como voltar atrás e dizer que foi só a fivela da sandália que ela confundiu com um bicho porque se recusa a usar óculos?

- Vamos levá-la ao hospital?! – Mari deu um pulo e pegou sua bolsa.
- Tá doida prima? – bradou o primo mais velho. – O hospital mais próximo fica a duas horas daqui, até lá, os ovinhos já se espalharam pelo pé, pela perna e os bichinhos vão nascer dentro dela e ela vai morrer em menos de 24h!
- O quêêê???? – Bia e Mari começaram a chorar, ambas pelo remorso.
- Morrer? Minha amiga não pode morrer! – Mari gritou.
- E não vai! Nós sabemos exatamente o que fazer! – disseram os primos.
- E o que é? – perguntaram as garotas.
- A gente vai colocar álcool nessa mancha e tacar fogo.
- Como é que é???? – Bia e Mari olharam com incredulidade.

Colocar fogo no próprio pé já era demais. Ela ia confessar a mentira. Bia respirou fundo e criou coragem.

- Pessoal, pessoal, preciso que vocês prestem atenção no que eu vou dizer. Não teve verme chupador zumbi nenhum. Eu inventei essa queimadura, que na verdade é um sinal de nascença, porque eu confundi a fivela da minha sandália com um bicho e fiquei com vergonha do mico. Mas, agora, isso chegou longe demais. Me desculpem pela encenação, mas tá tudo bem.

Os irmãos e Mari se entreolharam.

- Hahahahahahahahahahahahahaha. – os três riram, até que Mari transformou seu riso em lágrimas de compaixão.
- Ela tá com medo. – disse Mari fungando.
- Ela não tá acreditando que vai morrer. – disse o primo mais novo balançando a cabeça.
- Vamos ter que fazer isso na marra. – completou o primo mais velho determinado.

(E, agora, faz-se necessário um segundo e último parêntese. Seria de mau gosto descrever o desespero de Bia quando os dois irmãos partiram para cima dela, enquanto Mari foi correndo à cozinha buscar o álcool e o fósforo. E de pior gosto, ainda, o momento em que o ato se concretizou).

Meses depois, Mari mudou de emprego e nunca mais teve coragem de procurar Bia.
Seus primos, agora, vão de vilarejo em vilarejo dando o depoimento de como salvaram a vida de uma pessoa, vítima do verme zumbi chupador.
E Bia, bem, ela faz um tratamento carésimo para melhorar o aspecto da pele queimada e, por causa disso, ainda não teve grana para comprar os óculos. Mas vai ter em breve porque, outro dia, ela confundiu uma garrafa de desinfetante com bebida isotônica e fez um estrago no estômago. Só que, dessa vez, ela arrumou um advogado, processou o fabricante e vai ganhar um bom dinheiro. Pena que a maior parte dele vai ter que ser usada para reconstruir o dedão do pé direito, que foi parcialmente decepado quando ela caiu da bicicleta porque não enxergou uma pedra no meio do caminho. Mas um dia ela vai fazer seus óculos, ah, vai!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O passarinho

Reginaldo era o faz-tudo da empresa. Não tinha nada que não pedissem a ele.

- Reginaldo, pega meu vestido na lavanderia? – pedia Clarisse.
- Reginaldo, vai lá no banco e paga essa conta pra mim. – mandava Daniel.
- Ô Reginaldo, o pé da cadeira quebrou, dá um jeito nisso faz favor? – era outro pedindo.

E, assim, o dia de trabalho passava rápido. Ele mal chegava, já estava na hora de ir embora. Sempre ocupado, sempre de um lado para o outro. Sempre disposto.

Era Sexta-feira, fim de expediente e o chefe mandou chamá-lo. Quando entrou na sala, Reginaldo logo reparou numa gaiola coberta em cima da mesa.

- Reginaldo, o negócio é o seguinte, preciso que você leve essa gaiola neste endereço. – e lhe entregou um papel com o nome da rua e o número de onde deveria ir. – A pessoa só vai estar lá até às 18h, então, pega o dinheiro do táxi com a Clarisse e se manda! E cuidado com isso, ok? Na Segunda-feira você vai buscar a gaiola antes de vir para cá.
- Sim senhor! – o faz-tudo respondeu com um sorriso.

Reginaldo pegou a gaiola com o maior cuidado e saiu da sala. Clarisse lhe deu um envelope com R$100 para o táxi de ida e de volta.

- O chefe disse que não precisa troco.

Então, ele pegou o dinheiro e foi embora carregando a gaiola. Chegando à rua, olhou o relógio e viu que ainda era quatro e meia da tarde. Foi aí que Reginaldo achou que seria uma boa ter aqueles R$100 no fim de semana e, para isso, bastaria ir de ônibus. Não titubeou. Olhou o endereço no papel que o chefe lhe dera e seguiu de busão mesmo. O que Reginaldo não contava é que um acidente envolvendo um caminhão tombado causaria um engarrafamento fora do comum, atrasando-o mais do que poderia. Nervoso, Reginaldo desceu do ônibus às 18h05 e, correndo com a gaiola na mão, chegou ao endereço quinze minutos depois da loja de animais já ter fechado. Sem ter o que fazer, resolveu levar a gaiola para casa.

- Caramba, o que que eu digo para o chefe na Segunda-feira?

Preocupado, Reginaldo chegou em casa e colocou a gaiola sobre a mesa da sala. A mulher foi logo perguntando do que se tratava.

- Que ideia é essa Reginaldo? Não vou ficar limpando caca de passarinho não, hein? Vou logo avisando!
- Esta gaiola não é minha não, é do chefe. Ele me pediu para levá-la numa loja, mas eu cheguei lá e já tinha fechado. O pior é que ele me deu o dinheiro para o táxi e eu resolvi ir de ônibus achando que daria tempo, mas me ferrei. Agora, nem sei o que digo a ele na Segunda-feira.
- E que passarinho que tem aí?
- Você sabe que eu nem olhei? Eu acho que a gaiola tá vazia, porque não ouvi um pio sequer.
- E pra quê que ele ia te dar uma gaiola vazia pra levar pra loja?
- Ah, sei lá, vai ver que ele comprou um passarinho e me mandou à loja justamente por isso.
- Você não perguntou homem de Deus?
- Eu não! Eu só faço o que me pedem. Não faço perguntas.
- Mas, então, levanta logo esse pano que eu quero ver se tem ou não um passarinho aí dentro!

E Reginaldo fez o que a mulher pediu. Mas foi só levantar o pano para ele perder a respiração e começar a gaguejar.

- Que... que... hã? Co-como assim?
- Fala homem, que que tem aí dentro? Um urubu?
- Não mulher, tem um passarinho morto!! Eu matei o passarinho do chefe!
- Morto? E agora? O que você vai fazer? Teu chefe vai te mandar embora por isso!
- Será?

E naquela noite Reginaldo não pregou o olho. Não parava de pensar na burrice que tinha feito pegando aquele ônibus lotado, tendo que sacudir a gaiola pra tudo que é lado. – É claro que o passarinho não aguentou o sacolejo e o calor infernal. Bateu as botas! O que é que eu faço?

A mulher, solidária ao jeito dela, contou pra vizinha o ocorrido e, em pouco tempo, o drama de Reginaldo se espalhou na vizinhança. Muitos vieram oferecer um passarinho vivo para ele substituir o pequeno defunto, mas eram completamente diferentes do passarinho do chefe.

- Toma aí Reginaldo, leva esse que lá em casa eu tenho muitos.
- Mas esse é amarelo e o morto é verde, não dá pra usar o teu.
- Tá, tudo bem, eu só queria ajudar. Quanta ingratidão!

Reginaldo estava desesperado. Já passava do meio-dia de Domingo e ele ainda não sabia o que fazer. Até que, por volta das 14h, a mulher entrou em casa gritando.

- Reginaldo, Reginaldo, corre aqui!
- Que que foi? Por que essa gritaria?
- O primo da dona Josefa tá aqui e disse que tem um monte de passarinho em casa, inclusive verde. Falou pra você ir lá com ele escolher que, com certeza, vai ter um igual.

E lá se foi Reginaldo correndo com a gaiola na mão, agarrado àquela possibilidade. Quatro horas depois, ele voltou sorridente para casa. Com a gaiola e um passarinho verde e vivo!

- Conseguiu Reginaldo? – perguntou a mulher.
- Consegui! Mas me custou os R$100 do táxi que eu quis economizar. No final, esse dinheiro não era para ser meu mesmo. Ah, mas eu tô aliviado. Graças a Deus! O chefe nem vai perceber, é igualzinho! Agora, eu vou dormir, porque eu tô um bagaço!

No dia seguinte, Reginaldo chegou mais tarde na empresa, para parecer que tinha passado na loja. Foi direto à sala do chefe e colocou a gaiola sobre a mesa.

- Obrigado Reginaldo. Eu estava ansioso para vê-lo. Você deu uma olhada nele?
- Dei não senhor. Do jeito que eu levei a gaiola, eu trouxe. Toda coberta.
- Então, fique aí para ver que belezinha.

Mas quando o chefe levantou o pano, fitou o passarinho verde, que piscava e olhava para todos os lados, e ficou mudo. Reginaldo não pôde acreditar. – Como ele reconheceu que não era o passarinho dele? Eram idênticos!

- Reginaldo, o que é isso?
- Ué, um passarinho verde chefe. – ele respondeu sentindo o coração apertar e pensando “estou frito”.
- Eu sei que é um passarinho verde, eu estou vendo isso!
- Então, não entendi sua pergunta...
- Reginaldo, o passarinho que estava nessa gaiola, estava morto! Eu te mandei levá-lo na loja, porque minha filha estava inconformada e eu prometi que iria mandar empalhá-lo!